Trabalho apresentado por MARIA LUÍSA ALBUQUERQUE
no Iº Encontro Ibero-americano de Parapsicologia,
realizado em Buenos Aires de 15 a 17 de Novembro/1996

 

1. O que é a morte

Todo homem morre. E, com essa morte, acaba de maneira radical a sua vida. Interrompe-se a história da sua existência. Ele separa-se brutalmente de tudo que fez, de tudo o que amou, de tudo o que eram os seus projectos e sonhos.

Assim é a morte! Um acontecimento horroroso que escapa a todas as tentativas humanas de explicação com meios racionais.

Apesar de todas as tentativas, sobretudo das religiões, de harmonizar a morte com a vida, permanece a ruptura, permanece o escândalo de um fim; permanece o facto dificilmente aceitável de que, com a morte, desaparece uma personalidade humana, que foi construída no decorrer de toda a vida que acaba. Para que se construiu essa personalidade, se ela desaparece?

Diante da radicalidade de tal questionamento, fracassam todas as tentativas lógicas de explicação. A pergunta pelo destino final é uma das grandes preocupações de todo o ser humano.

2. A crença na sobrevivência como desejo de fugir ao aniquilamento

O que será de mim após a morte? Será que esta vida e este meu ser irão de alguma forma continuar?

Ou será que, depois desta vida, não haverá mais nada, de tal maneira que do meu ser haverá apenas uma lembrança na mente de algumas pessoas? Lembrança, aliás, que dentro de pouco tempo também se perderá?

Caso se responda de acordo com uma das muitas correntes ateístas de hoje, não haverá mais nada após esta vida. Então, haveria duas possibilidades para encarar a vida: ou se vê nela um esforço absurdo e sem sentido, ou se vê nesta vida o valor único e definitivo, do qual se deve usufruir o mais possível, enquanto ela durar. Uma vez passada esta vida, no entanto, tudo o que cada um é desaparecerá, aniquilado num nada absoluto.

Mas, caso se opte pela decisão de aceitar uma vida eterna depois da morte, surge imediatamente uma pergunta: como será essa existência eterna?

3. As duas possibilidades de sobrevivência:

Há basicamente duas possibilidades opostas entre si.

3.1 - Reencarnação

Primeira possibilidade: a criatura humana chega ao seu destino final através de várias vidas sucessivas. E nessas vidas, a criatura purificaria o seu karma numa caminhada progressiva de aperfeiçoamentos, até chegar ao nível de perfeição final. Um ciclo sem fim, em que a mesma vida se repete sem interrupção. É a doutrina da reencarnação.

3.2 - Ressurreição

Segunda possibilidade: a criatura humana chega ao estágio final da sua vida através de uma única vida. É nesta vida única e irrevogável que se decide a sua situação definitiva. A existência eterna é o fim último do ser humano, o culminar da sua existência, em que qualquer transformação termina e toda a situação provisória e precária se estabelece numa forma perfeita e definitiva.

Denominada de doutrina da ressurreição, marca o pensamento da religião judaico-cristã.

4. Ambas sem possibilidade de comprovação científica

São respostas que pertencem ao domínio da religião, seja ela qual for.

Uma análise sem preconceitos, mostra que a maioria das chamadas “provas de reencarnação” não resiste à crítica da análise científica.

E hoje em dia, a maioria dos integrantes das sociedades pós-industriais, não aceita a referência a dogmas.

Estamos perante o facto inegável e provado pela sociologia de que toda a concepção religiosa produz, por sua vez, as experiências correspondentes a essa mesma concepção. E por causa disso, não adianta recorrer a provas chamadas científicas. A toda a prova se pode opôr uma contra prova, e qualquer argumento racional pode ser contestado por outro argumento.

5. O “além” como ruptura e os consequentes caminhos de fuga:

O “além” apresenta-se assim como uma ruptura radical com todas as coisas que imaginamos e conhecemos. Perante este facto, o homem sente a tendência de fugir.

5.1 – Pontos de contacto?

Um dos caminhos dessa fuga é afirmar que existem pontos de contacto com o mundo do além e possibilidade de incorporações, interligações vibratórias, interferências energéticas, etc.

Se assim fosse, a ruptura não seria tão radical. Em lugar de ruptura, haveria apenas uma passagem. Vista a partir deste ângulo, a morte perderia o seu terror, e consequentemente, desapareceria também o aspecto escandaloso dessa morte, o fim da personalidade construída durante a vida.

As tentativas reencarcionistas parecem-me motivadas por estes mecanismos de fuga, com todos os perigos resultantes de ocultar uma realidade humana inegável: a morte continua a ser um escândalo.

5.2 – A morte como passagem

As tentativas de explicar a morte como passagem, permitem conservar a esperança numa vida após a morte, sem no entanto exigir a aceitação dum Deus único e soberano capaz de possibilitar tal vida.

No fundo nem a resposta reencarcionista, nem a resposta cristã podem ser provadas de maneira científica. As duas são respostas de fé, consequentemente são respostas do domínio da religião.

Em nenhuma das duas se encontram, factos cientificamente provados. Pelo contrário, são convicções religiosas, crenças, atitudes de fé, que têm, como aliás qualquer fé, o seu fundo na confiança de que não me iriam enganar aqueles nos quais se fundamenta essa mesma fé.

A filosofia perene, garante que no ser humano o princípio vida é espiritual, único e indivisível, unido ao corpo formando uma só e única identidade. O princípio que anima o corpo para a vida racional é o mesmo que anima o corpo para a vida sensorial e o mesmo para a vida vegetativa. E mais não adianta, nem pode adiantar. Situa-se no campo das disquisições. A própria filosofia tem de partir de factos, senão é sofisma.

6. O pensamento de Occam e James

E os factos que nos são apresentados pelas diversas religiões como sendo evidências da sobrevivência, terminam por ter explicação natural. É aceite por todos em metodologia científica a “navalha de Occam”, nome dado ao princípio estabelecido por Guilherme de Occam, teólogo e filósofo inglês, mestre em espistemologia (ou raciocínio lógico) que viveu de 1300 a 1350, de grande influência na evolução da epistemologia ou raciocínio lógico: entre duas explicações igualmente possíveis, deve escolher-se a mais simples.

O grande pesquisador William James, diz-nos o mesmo por outras palavras: “A regra do senso comum, para as presunções em lógica científica, é de nunca recorrer a um agente desconhecido sempre que houver um conhecido; e de nunca escolher para um fenómeno uma causa mais rara, quando uma mais comum a pode explicar.”

7. Conclusão: interdisciplinaridade

Então, num caminho de interdisciplinaridade, o problema da sobrevivência é em primeiro lugar um domínio da parapsicologia (ciência), depois da filosofia e por fim da teologia (religião).

No entanto, a crença religiosa não pode ser irreflectida. Parapsicologia e Teologia, Ciência e Religião, complementam-se. Uma não pode prescindir da outra, ignorarem-se mutuamente. O teólogo precisa do parapsicólogo, e o parapsicólogo não pode isolar-se no seu campo específico; um e outro devem olhar através da porta que mutuamente abriram. Agir diversamente seria ir contra a natureza humana, seria querer fazer da realidade uma dicotomia irreal, fictícia, inexistente.

Termino com o pensamento do prestigioso parapsicólogo e grande pensador neste campo, Robert Amadou: “Além do enriquecimento intelectual, qualquer que ele seja, que proporciona à Ciência, o mérito da parapsicologia é, ao mesmo tempo, o de proteger-nos contra as superstições e o de convencer-nos de que o sagrado, o mistério e o sobrenatural não se reduzem certamente às suas imitações inferiores; certamente o homem não é toda a realidade. O homem, e o mundo menos ainda, não é Deus”.


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