por Maria Luísa Albuquerque
publicado no Jornal de Parapsicologia

 

Graças à leitura da correspondência entre Freud e Jung ficamos a saber que Freud testemunhou, de facto, a produção de fenómenos parafísicos por Carl Jung. Este acreditava que todo o ser humano possui capacidade para usar esta energia (telergia) e que a mesma é projectada inconscientemente para o exterior. Muitas vezes, os indivíduos que sofrem um fenómeno parafísico não dão conta de que são eles próprios os causadores desta actividade. Para Jung era importante conseguir um controlo consciente da telergia de modo que, através de um acto de pura vontade, um objecto pudesse ser movido ou levitado.

Freud assistiu a experiências de Jung em que este tentou mover objectos sem contacto físico visível, e esse acto foi tão perturbador para o psicanalista que depois de ter confirmado numa carta ter visto Jung mover objectos, acabou por se desdizer numa outra missiva. Freud não acreditou no que os seus olhos viram e aceitou que se tratasse de mera sugestão por parte de Jung, que o teria levado a ver o que realmente não podia ter acontecido. Este desmentido tem sido muitas vezes usado pelos detractores da existência de fenómenos parafísicos.

Muitos cientistas negam os fenómenos parapsicológicos sem os ter estudado. Quando de repente lhes aparece um fenómeno destes — sobretudo aos psicólogos e psiquiatras —, é-lhes difícil admitir que a sua vida tem sido um equívoco. Custa muito encarar uma mudança radical acerca do ponto de vista da realidade e natureza humana.

Numa carta datada de 24 de Julho de 1921, dirigida a Hereward Carrington, Freud escreve: «Não pertenço ao grupo dos que rejeitam o avanço dos estudos dos fenómenos ocultos, com alegação de que são não científicos, indignos ou nocivos. Se estivesse no início da minha carreira científica, em vez de me encontrar no seu final, talvez não escolhesse outro campo de estudos, apesar de todas as suas dificuldades».

É interessante notar que a obra de Freud, Psicanálise e Telepatia só foi publicada após a sua morte em 1941. Aí lemos alguns depoimentos dramáticos que Freud fez a respeito da hostilidade da maioria dos cientistas da sua época perante os fenómenos psíquicos. Freud teve bastante dificuldade em obter aceitação dos seus pares para as teorias psicológicas e para a psicanálise que defendia, por isso não é de admirar que fosse contra a publicação das suas opiniões e das suas descobertas nos dos fenómenos hoje classificados como parapsicológicos.

Um grupo de cientistas da mesma época acreditava que os fenómenos psíquicos deveriam ser estudados cientificamente pelos investigadores usando o método experimental clássico. Em 1994, Eva Brabant publicou a correspondência entre Freud e Sandor Ferenczi (The Correspondence of Sigmund Freud and Sandor Ferenczi), um neurologista húngaro que contribuiu para a construção da teoria psicanalítica. São 483 cartas de um total de 1236 escritas durante 25 anos e incluem as suas secretas incursões no domínio das investigações psíquicas. Consideremos quanto seria difícil aos colegas de Freud aceitarem a seguinte sugestão:

«Devemos, pelos menos, abordar a questão sobre se devemos recusar todos os fundamentos supersticiosos, sejam eles agoiros, sonhos proféticos, experiências telepáticas, manifestações de força sobrenatural e fenómenos aparentados. Julgo, neste momento, que estou longe de pretender repudiar sem uma reflexão prévia todos estes fenómenos, tendo em conta que reunimos uma quantidade notável de descrições feitas, inclusive, por homens intelectualmente credenciados, e que servirão, certamente de base para futuras investigações. Esperaremos que alguma destas observações possam vir a ser explicadas pelo nosso crescente conhecimento do processo do inconsciente psíquico sem necessitar de alterações radicais nas nossas presentes perspectivas de estudo. Se se provar a existência de outros fenómenos como por exemplo os que são reivindicados pelos espiritas, deveremos pensar em modificar as nossas “leis” como o exigem as novas experiências».

Em 4 de Julho de 1919 Jung fez uma conferência intitulada Os Fundamentos Psicológicos da Crença em Espíritos e sublinhou nessa ocasião que “Os espíritos eram complexos inconscientes e autónomos que aparecem como projecção”. À pergunta sobre quem ou o que projecta essa energia a fim de criar um fenómeno parafísico, Jung respondeu que a origem estava num médium vivo. Estes fenómenos eram “a exteriorização de complexos inconscientes”.

Jung sempre acreditou que os fenómenos parafísicos tinham a sua origem no inconsciente ser vivo. Com o passar do tempo, Jung alargou as suas opiniões acerca destes fenómenos, abrangendo a crença de todos possuímos potencial para concretizar efeitos físicos a partir da nossa própria energia.

Nas edições nº 9, 10, 20, 36 e 42 do «Jornal de Parapsicologia» (ed. CLAP-Portugal que terminou em Dezembro de 2000) foi posta a hipótese que o epicentro de um fenómeno parafísico fosse alguém com perturbação psicológica, normalmente uma angústia interrogativa. Já Jung e Freud postularam que, de um modo geral, os fenómenos parafísicos surgem, frequentemente, de um conflito interno que o consciente tenta reprimir e esquecer, sempre que o problema é demasiado para ser conscientemente encarado. A energia gerada pelo consciente exterioriza-se, e o efeito pode ser interpretado como um pedido de ajuda para alertar os outros para essa angústia interior. Por outras palavras, a manifestação de um fenómeno parafísico não passa de um sintoma de uma pessoa a reclamar urgentemente ajuda. Através de uma cura interior, usando a psicoterapia, as perturbações (manifestações) externas cessarão. Podemos dizer que o psicoterapeuta ajuda o paciente a sepultar os seus “fantasmas” passados, acabando, em consequência disso com manifestações físicas, falsamente fantasmagóricas.

A libertação desta energia atinge descontroladamente objectos materiais. Na minha observação clínica concluí que embora estes agentes Psi inconscientemente acreditavam ser incomodados pelo demónio ou fantasmas, a realidade é que eram eles próprios os criadores dos fenómenos parafísicos.

Muitas vezes, ao fazer-se a investigação de um fenómeno parafísico chega-se à conclusão de que é fraude. Mas o próprio acto fraudulento pode ser tido como um pedido de ajuda e prova de perturbação psicológica. A resposta apropriada será a oferta de uma psicoterapia cognitiva de modo que se possa chegar à fonte do problema e, teoricamente acabar com actividade parafísica ou poltergeist.

Uma teoria discutida por H. J. Irwin (An Introduction to Parapsycology) defende que uma pessoa num estado de considerável transtorno psicológico, conflito e tensão, libertará uma energia contida que, por sua vez, colide aleatoriamente com objectos, os parte ou os faz levitar. Supõem-se que as experiência de fenómenos parafísicos reflectem um conflito psicológico profundo. Através da identificação correcta da origem das perturbações abre-se uma pista para resolver potencialmente o problema.

Bibliografia:

Bayless, Raymond. The Enigma of the Poltergeist. West Nyack, NY: Parker Publishing Company, 1967.

Bender, Hans. «An Investigation of Poltergeist Occurences», Proceedings of the Parapsychological Association, nº5, 1968, pp. 31-33.

Brabant, Eva, et al (Editors). The Correspondence of Sigmund Freud and Sandor Ferenczi. Vol 1, 1908-1914. Cambridge, Ma: The Belknap Press/Harvard University Press, 1994.

Fodor, Nandor. Encyclopaedia of Psychic Science. Seacaucus, NJ: The Citadel Press, 1974.

Freud, Jung, and Occultism. University Books, Inc. 1971.

On the Trail os the Poltergeist. New York: The Citadel Press, 1959

—«The Poltergeist – Psychoanalyzed». Psychiatric Quarterly, 22, 1948. P. 198.

Irwin, H. J. An Introduction to Parapsychology. Jefferson, NV: McFarland AND Co., Inc., 1989.

Owen, A R. G. Can We Explain the Poltergeist? New York: Garett Publications, 1964.

Rogo, D. Scott. Minds and Motion: The Riddle of Psychokinesis. New York: Taplingen Publishing Co., 1978.

On the Track of the Poltergeist. Englewood Cliffs, J: Prentice-Hall, 1986

Roll, William G. The Poltergeist. Garden City, NY: Nelson Doubleday, 1972.


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