Freguesia de Palmeira — Braga — (norte de Portugal) — Outubro de 1976 — O Pároco faz um telefone preocupado para um colega da Faculdade de Filosofia: “que venha alguém ver, passam-se fenómenos estranhos numa casa da minha paróquia, eu mesmo já os vi”. E fez uma rápida descrição de pedras a voar, medas de palha a pegarem fogo, pancadas nas portas e janelas, sem ninguém lá estar. Já tinham sido chamadas as autoridades e o dono da casa andava armado, com medo.

No dia seguinte, acompanhada de dois jesuítas e dum médico, lá fomos até à casa “assombrada”.

Família composta de pai, mãe, sete filhos e um tio-avô com 76 anos. Mais a vizinhança toda que nos esperava, em nítido alvoroço, cada querendo contar “aquela vez que viu”… os feijões arderem (pirogénese), os tomates saltarem da cesta (telecinesia), as espigas de milho parecendo dançar (telecinesia), as pedras que vinham do nada (aporte).

Não foi fácil pôr um pouco de ordem na situação; na verdade havia tanto alvoroço nos habitantes da casa, como nos vizinhos e... até no nosso grupo. Para cada um era a primeira vez que contactava um fenómeno destes e na verdade, também quase que se verificava o ditado “cada cabeça, sua sentença”.

Confesso: eu ia cheia da “sabedoria” do principiante... Tinha estudado já a obra de Hans Bender, o professor da Universidade de Friburgo que primeiro se dedicou a fazer análise dos fenómenos parafísicos. Tinha lido toda a obra do Pe. Quevedo editada na altura. Conhecia todo o trabalho de pesquisa feito pelo jesuíta colaborador do CLAP-São Paulo, Pe. Edvino Friedrichs (que tinha sido meu professor), um especialista em resolver este tipo de casos no Brasil. E assim, sabia que este tipo de fenómenos é causado pela emissão de energia somática, dum ser humano vivo e presente ao fenómeno a menos de 50 metros. Que em parapsicologia damos o nome de telergia a essa energia e chamamos psicorragia à emissão da mesma. Pensei para mim, que sendo o meu primeiro caso, seria altura de fazer bonita figura! Sabedoria de ignorante...

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BENDER, Hans (1907-1991). Tendo-se doutorado em Medicina e Psicologia, consagrou mais de quarenta anos de sua vida a investigações de Parapsicologia. Dirigiu o “Instituto para as Zonas Limítrofes da Psicologia” e concretamente para as zonas da Psicohigiene, na Universidade de Freiburg im Breisgau, Alemanha. O Instituto foi integrado na Universidade em 1954, passando Bender a catedrático de Parapsicologia.

Entre suas publicações deve destacar-se “Unser Sechster Sinn. Telepathie, Hellsechen und Psychokinese in der Parapsychologischen Forschung”, Stuttgart, 1971; e publicado com vários colaboradores “Parapsychologie. Entwicklung, Ergebnisse, Probleme”, Bremem, 3a. ed. 1970.

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Sabia que, no meio de toda esta aparente confusão, há algumas regras habituais, conclusão de Hans Bender: 80% destes casos, são provocados por adolescentes e mesmo entre os adolescentes, reserva-se uma fatia de 90% a meninas na idade da puberdade.

Assim, eu tratei logo de procurar a “menina adolescente culpada”. Primeiro fracasso, pois as meninas na família eram as mais novinhas. Bem, então procurei “o adolescente problemático”.

E, com a “certeza” que caracteriza todo o principiante, os meus olhos foram cair no Francisco, o mais velho dos sete irmãos, então com 15 anos.

No entanto, algo não estava bem... pois tive a impressão de que nem sempre o Francisco estava presente quando os fenómenos aconteciam.

Sem querer dar parte de fraca, dado o adiantado da hora, e a dificuldade em ouvir as pessoas, pois tudo falava ao mesmo tempo (mesmo os que me acompanhavam), terminámos a primeira visita, prometendo voltar. Foi o que fiz no dia seguinte, já só com um acompanhante e... com muito menos certezas quanto à minha “sabedoria”.

Como não estavam à nossa espera, já não aparecerem os vizinhos, o que reduziu o número de pessoas a falar. Dispus-me a ouvir e então foram contando os episódios com calma. Tomando notas, comecei a perceber que havia um denominador comum em quase todos os fenómenos: o Francisco e o tio-avô, o senhor António, pareciam estar sempre presentes.

Recordando os conselhos do Pe. Edvino Friedrichs, S.J. (meu professor), fui começando a fazer uma tentativa de terapia cognitiva: “que era alguém da casa que estava a produzir o fenómeno…”. Fracasso total. Nem queriam aceitar. Para uns eras o demónio, para outros, “mal de torrão” e havia ainda quem falasse no espírito do antigo dono.

O mais indignado e quem menos aceitava, era o senhor António: “então não me querem lá ver a deitar fogo às medas de palha que tanta falta fazem para o gado! Isto é o demónio, já disse”.

Como ninguém estava a ligar às minhas “teorias”, tive de pôr de lado a minha “imensa sabedoria” e fazer algo de prático, que os convencesse. Assim fiz uma proposta: “o senhor António e o Francisco saem de casa por uma semana e garanto que tudo vai acabar”. Espanto geral!

Retorquiu o senhor José, dono da casa: “minha senhora, o demónio é muito esperto”.

Está bemdisse-lhe eu. Mas agora nós vamos ser mais do que ele. Tirem os dois de casa por uma semana, vão para a cidade e vão ver que enganamos o demónio”.

E assim foi: os dois fora de casa… e nessa mesma noite já não houve nada. Respirei de alívio. Pelos vistos, alguma coisa estava a correr como eu tinha aprendido nos livros!… Aproveitei para demonstrar à família que tudo aquilo nada tinha a ver com demónio, mas sim com o Francisco (eu ainda estava com a ideia de adolescente/culpado, como tinha aprendido nos livros) ou com o senhor António.

Mas a família, embora perplexa pela interrupção dos fenómenos com o simples afastamento dos dois, ainda não estava plenamente convencida.

O pior foi quando eles regressaram, pois os fenómenos voltaram com mais violência. Chegaram a cair pedras todo o dia e de noite, estando a porta fechada e a família à volta da lareira, apareceu uma pedra com 11 kg, que caiu suavemente aos pés do senhor António (aporte). Ao pegar nela, o dono da casa sentiu-a quente e imediatamente afirmou que só podia ter vindo do Inferno.

Entretanto cessaram os fenómenos de pirogénese, mas começaram as pancadas na porta e janela do quarto do senhor António, sem causa visível (tiptologia). Este começou a ser atingido por objectos moles, como tomates, a lama do chão e um dia em que eu lá estava, cheguei a ver uma abóbora esborrachar-se nas suas costas. Nesta fase ele estava já muito deprimido, pois afirmava que era o demónio que o vinha levar e sendo assim — dizia, “que viesse depressa”. E deixou de comer e dormia mal, exigindo uma luz acesa toda a noite “para o ver quando ele viesse”.

A dona da casa, Isabel, telefonou muito aflita que fossemos lá depressa, pois via a saúde do tio a declinar. Que fizéssemos alguma coisa, demónios, espíritos ou “mal de torrão”, pouco lhe importava, o que ela queria era socego.

Fomos com urgência e eu a buscar no recôndito da minha “sabedoria” a solução, que afinal era mais complicado do que esperava.

Resolvi então separar o jovem Francisco, do tio-avô. Pedi que este voltasse a sair de casa. Teve então uma reacção que me surpreendeu: desatou num choro, “eu não quero deixar esta canalhinha que ajudei a criar”. Consolava-o a sobrinha: “então tio, vai para Soutelo, para casa da minha irmã que também é sua sobrinha. E depois volta, não é?”, perguntava olhando para mim. Acenei que sim.

Oito dias depois voltei à casa. Os fenómenos tinham cessado por completo e a família estava mais tranquila. Então, continuando o questionamento, percebi que só por duas vezes se produziram fenómenos em presença do jovem Francisco, sem o tio; que houve fenómenos quando o senhor António estava sozinho, mesmo na ausência do Francisco; que estando o tio e o rapaz juntos, os fenómenos pioravam e mais ainda, se estivesse uma jovem de 20 anos, casada e trabalhadora assalariada da casa. Por tudo isto, percebi que o principal causador dos fenómenos era mesmo o senhor António, sendo o adolescente Francisco e a jovem casada de 20 anos, meros colaboradores. Isto sim, estava nos livros que havia estudado: o principal causador, com frequência precisa utilizar a telergia dos que o rodeiam, sobretudo se eles também estão em estado de excitação.

Mas será que a família, gente humilde, conseguia entender as minhas explicações dos efeitos parapsicológicos, embora as apresentasse o mais singelamente possível? Como fazê-los entender isso de exteriorização e transformação de energia somática, dirigida pelo inconsciente, para trazer invisivelmente pedras (aporte), e mexer objectos (telecinesia), golpear nas portas e janelas (tiptologia) e queimar (pirogénese e termogénese)?

Optei por provas mais práticas: se fossem os espíritos ou o demónio, porque é que afastando o senhor António a mais de 50 metros da casa, os prodígios cessavam? Se fossem os demónios, dizia eu, repetindo uma frase do Pe. Quevedo, “ao menos podemos exigir que não se convertam em apóstolos”: porque a família, quando os fenómenos se produziam, rezava o Terço, cantava os Cânticos da Igreja (e os fenómenos pioravam!); o tio tinha ido confessar-se e comungar sem resultado, o que não estava a condizer com a tradicional esperteza atribuída ao demónio. Se fosse realmente ele, os fenómenos teriam já cessado, para acabar com tanta devoção.

A família estava já a aceitar um pouquinho as minhas explicações, mas e o senhor António? Fui visitá-lo: andava satisfeito a trabalhar no campo, saudoso da outra família, embora satisfeito por estar também em casa de sobrinhos.

Então, ao conversar mais com ele para o fazer abrir-se, contou que tudo tinha começado justamente no dia do seu aniversário. Tinha feito 76 anos em Maio e sabia que, apesar da boa saúde que gozava, um dia a morte viria buscá-lo. E era isso o que o preocupava: não medo da morte, mas o facto de não conseguir saber o que haveria na outra vida de o senhor padre falava. Na verdade, afirmou, ele estava era com pena de deixar os sobrinhos (a canalhinha, como lhes chamava, carinhosamente) e todo o ambiente agradável que o rodeava. Andava por vezes a cismar sobre a idade e recordava como era na idade do Francisco, como trabalhava. E ficava perturbado, angustiado… sem saber com quem falar. Assim começaram os fenómenos parapsicológicos, que com o passar do tempo e o aumento da angústia, se diversificaram.

Estava assim o senhor António com esta preocupação, sem saber a quem falar, enquanto trabalhava no campo, com o Francisco, no dia do seu aniversário. Começaram então a cair a primeiras pedras perto deles. Procuraram quem as tivesse atirado, mas não encontraram ninguém. Aborrecidos, mudaram de lugar, mas as pedras até pareciam vir atrás deles…

E a partir desse dia, o fenómeno passou a repetir-se com frequência, aumentando em requinte: ao desfolharem o milho, junto com umas mulheres assalariadas, e as espigas pareciam dançar (telecinesia). Dum cesto, a cerca de dez metros de distância, saíam alguns dos tomates que lá estavam e iam atingir sobretudo o senhor António (telecinesia com psicobulia=desejo de comunicar. O inconsciente do senhor António, chamava a atenção sobre ele, sobre o que o angustiava).

As pedras, às vezes atingiam com violência o telhado, partindo muitas telhas; outras vezes, caíam suavemente. Nunca feriram ninguém, como é normal nestes fenómenos e, quando o senhor António era atingido, era sempre por coisas macias (tomates, abóboras, porções de lama). Por vezes as pedras roçavam-no suavemente, “como uma pena a passar”, dizia ele.

Os objectos movidos por telecinesia, só podem golpear na mesma pessoa que inconscientemente emitiu a telergia. Com outras pessoas pode haver somente um mínimo roçar ou vento do objecto quando passa por perto. Mas não chega a golpear, porque a telergia que mexe a pedra e a telergia da pessoa visada, repelem-se, por serem forças do mesmo signo. Só, repito, podem golpear a mesma pessoa que emite a telergia: não são duas energias diferentes, senão a mesma telergia.

As medas de palha incendiavam-se, sem ninguém lhes tocar, mas sempre o senhor António estava por perto, a menos de 50 metros. Um dia, uma chegou a arder completamente, apesar da chuva. Outra vez, o senhor António e o Francisco, estavam a escolher feijão e estes pegaram fogo (pirogénese e termogénese). O cesto onde os feijões estavam, ficou parcialmente queimado.

No quarto onde o senhor António dormia, as janelas abanavam como se alguém estivesse a bater-lhes (tiptologia). Tomou este facto como uma chamada do demónio e mudou de quarto. Mesmo assim, passou a dormir com a luz acesa.

Pouco a pouco, os fenómenos iam aumentando, a ponto de provocar pânico na família e vizinhos, especialmente no dono casa, o senhor José, que temia ficar sem poder dar de comer ao gado, se algum daqueles incêndios se repetisse. Por isso, passou a andar armado “para apanhar o maldito”, conforme palavras suas.

Até que resolveram expor o caso ao pároco, na altura com 82 anos. Este dispôs-se a passar um dia com a família, para ver os fenómenos. E conseguiu, o que o deixou perplexo.

No entanto não ficou lá muito convencido a fazer exorcismos, pois, embora não soubesse a explicação, não ficou muito convencido com a ideia de que o demónio andasse assim a brincar com aquela família. Resolveu então pedir ajuda a um colega natural da mesma aldeia, na altura professor extraordinário da Faculdade de Filosofia.

A SOLUÇÃO!

Desvendado o “mistério”, havia que resolver os problemas psicológicos do senhor António, que se manifestavam com essas reacções parapsicológicas. Começámos então a dar-lhe sugestões positivas quanto à morte: que os pais dele e os avós também não ficaram aqui… Que seria do mundo se todos ficassem? E ele ainda tinha de dar graças a Deus, pois naquela idade estava cheio de força e vigor, orientando perfeitamente os trabalhos agrícolas da casa. E quanto ao que será a “outra vida”, ninguém o pode dizer, mas havia que ter confiança em Deus-Pai, etc. etc.

O médico prestou aqui a sua ajuda, receitando um ligeiro tranquilizante, que o fez ter sonos mais tranquilos e reparadores, importantes para a recuperação psicológica.

E pouco a pouco ele foi superando o seu temor, colaborando nas conversas, abrindo-se. Começou a aderir à nossa ideia, a acreditar mais no que nós lhe explicava-mos do que na vizinhança. Pois outro problema eram os conselhos dos vizinhos: que era a alma deste e daquele, que fossem a tal curandeiro, a tal padre que esse sim, lhes faria “as rezas”, etc.

Quando o senhor António começou a aceitar que realmente não era o demónio, nem os espíritos dos mortos, a sua vida modificou-se e a fenomenologia nunca mais se repetiu. voltou a comer a dormir bem. Perdeu o medo da antiga casa e regressou, esclarecido, tanto quanto é possível na sua mente simples.

E quando os vizinhos lhe perguntam o que passava, ele respondia “vão falar com o senhor padre de Braga e aquela senhora; eles explicam melhor que eu”...

Durante os meses seguintes, continuei a visitar a família para me inteirar de como iam as coisas. Tudo em perfeita ordem: o senhor António está feliz, voltou para o seu antigo quarto e dorme com a luz apagada, sem medo.


Casa de campo, algures perto de Cabeceiras de Basto (norte de Portugal) — 1980. A dona de casa, de nome Ana, acordou sobressaltada, com um pesadelo. Meia ensonada, olhou para as sombras do quarto e, ainda sob o efeito do pesadelo, pareceu-lhe ver um rato (alucinação). Chamou o marido, Manuel que não lhe ligou, antes a mandou continuar a dormir.

Mas ela estava assustada e focou com os olhos bem abertos. Pareceu-lhe que o rato voltou, mas desta vez era maior e começou a crescer, ocupando todo o quarto. Voltou a insistir com o marido que se zangou.

Terminou por tapar a cabeça e adormeceu. Na manhã seguinte houve discussão entre o casal, pois ela afirmava que tinha visto o rato e ele impacientava-se.

Todo o dia não lhe saiu a ideia da cabeça e de vez em quando, insistia com o marido. Nessa noite, antes de se deitar, manifestou medo, mas o marido não ligou. Acordou a meio da noite outra vez com a ideia do rato e afirma que o viu crescer. Chamou o marido, insistiu com ele, mas este mandava-se dormir.

A certa altura, afirma que o rato, quase do tamanho do quarto, começou a bater com a pata na cama. A verdade é que volta a acordar o marido e desta vez ele ouviu pancadas (tiptologia), mas não viu rato algum. No entanto, ficou assustado e pensaram que só poderia ser o diabo.

Resolveram ir falar com o padre, para que lhes fosse benzer a casa. Mas apesar da benção, o rato teimava em aparecer e o senhor José terminou por o ver (alucinação induzida pela insistência da mulher). E assim durou a “visão” um tempo, sempre acompanhada de tiptologias. Até que, o pároco veio um dia a Braga e foi pedir licença na Cúria para ler os exorcismos.

A conselho do Vigário Geral, o casal veio ter comigo. No entanto, tinham uma ideia fixa: que seria eu a dar a ordem para lhes fazerem “as rezas”, como diziam.

Este modo de pensar, dificultava as explicações. Tanto pareciam acreditar no que eu lhes dizia, como davam a entender que não percebiam nada.

Desisti que os fazer pensar racionalmente e optei pelo relaxamento neuro-muscular, para ver se, diminuindo o estado de excitação inconsciente, os fenómenos cessariam.

Muitas vezes, ao induzir o relaxamento nos pacientes, aproveito também para me distender, fechando os olhos e soltando os músculos. Uma tarde morna de primavera, estava eu a fazer o relaxamento à senhora Ana, numa pequena salinha interior que tenho no consultório, preparada para o efeito e acompanhava as minhas próprias palavras de olhos fechados, quando ouvi na parede ao lado da cama onde a senhora estava deitada, um estrondo como se tivesse sido feito com um potente chicote. Dei um salto, pois não esperava. Ela ficou tranquila e continuei o exercício. A recepcionista e as pessoas que estavam na sala de espera, também ouviram.

No fim, a senhora voltou-se para mim e disse com um ar muito calmo: — “Creio que desta ‘ele’ foi embora. Agora já acredita em mim?”.

E nunca mais voltaram a acontecer fenómenos com aquele casal! Houve uma nítida influência da senhora Ana no marido, para que os fenómenos começassem e depois, terminassem.


Enviado pelo Pe. Vaz Pato, na altura Provincial dos jesuítas, fui procurada por um gestor duma empresa de Évora (interior de Portugal).

Contou que, havia um tempo ouvia pancadas, como se alguém o estivesse a chamar (tiptologia). Tinha procurado um Cónego amigo, mas ele tinha dito que não se metia “nessas coisas”. Um pouco assustado, foi falar com o também seu amigo Pe. Vaz Pato, que o socegou dizendo que era um fenómeno parapsicológico. E pediu-lhe que me procurasse.

Pensei logo que ainda não tinha tido conhecimento dum fenómeno parafísico clássico, como estudei nos livros: provocado pela menina adolescente. O primeiro era provocado pelo senhor de 76 anos, o segundo a mulher induziu o marido e este até nem era com gente do campo.

Perguntei como tudo começara. Sintético, contou que havia dois meses estava a fazer a barba e começou a ouvir estalidos no móvel. Como estava só, não percebeu o que estava a acontecer, mas também não ligou importância, pensando que era a madeira a dar de si, apesar do móvel ser antigo. Mas no dia seguinte o fenómeno voltou a acontecer e os estalidos, passaram a ser mais fortes, até que, nos dias subsequentes, eram nítidas pancadas. Insisti que me pormenorizasse as situações. Assim fez, o que lhe provocou alguma excitação, que procurou controlar.

Reparei então que a persiana do consultório começou a ranger, como se alguém estivesse a brincar com o desenrolador. Relacionei o facto com a excitação provocada pela minha insistência em querer saber mais pormenores da situação. Não disse nada, mas continuei o questionamento, procurando manter aquele estado de excitação psíquica.

Então foi-me contando que tinha em Évora uma boa situação financeira e social: gestor duma empresa próspera, a mulher também com um bom emprego e os filhos a estudar com satisfação. Casa própria, bem montada. Mas há uns três meses tinha recebido uma proposta de trabalho, muito aliciante finaceiramente falando, mas que implicaria saída de Évora, com todas as alterações familiares que isso traria.

Pedindo conselho à mulher, não conseguiu nada; “tu é que decides”, dizia. Os amigos aconselhavam a não desperdiçar a oportunidade, “olha que podes não ter outra” e os filhos nada diziam.

O tempo urgia, havia que dar uma resposta que não conseguia. Pressão da parte da nova empresa, pressão dos amigos, silêncio da mulher e filhos. Andava nervoso, sem conseguir decidir. E o dia da resposta a chegar…

Enquanto contava isto, agitava-se na cadeira e a persiana a estalar com mais força. Chamei-lhe a atenção para o facto. Admiração: “então sempre sou eu, como me disse o Pe. Vaz Pato? Mas como?”

Fiz-lhe então uma breve explicação sobre o complexo energético do ser humano e como, o estado de angústia em que vivia lhe tinha provocado uma alteração psíquica, com a consequente emissão (psicorragia) de energia (telergia) somática.

Foi marcado novo encontro para essa mesma tarde, devido ao pouco tempo que o senhor dispunha.

Ao entrar no consultório, ouviram-se pancadas fortes na parede, como se estivesse alguém a bater num cano, justamente por detrás da cadeira onde o senhor se sentou. Fiz-lhe notar o facto e que não havia ali nenhum cano. Imediatamente as pancadas cessaram.

Contou então que desde a conversa da manhã tinha ficado mais confuso, pois não sabia como dominar o fenómeno e havia que dar uma resposta à empresa.

E foi feita toda uma psicoterapia nesse sentido. Na verdade, ele não queria sair de Évora, pois o que iria ganhar financeiramente, iria representar perda em matéria de harmonia familiar. Mas havia a pressão dos amigos, a pressão social…

Feita a discussão do problema, ajudado a tomar a decisão que no fundo era o que ele queria, o fenómeno cessou e, pouco tempo depois recebi um telefonema de Évora, da mulher, agradecendo a ajuda que tinha dado a toda a família.


Numa casa de campo, entre as cidades de Felgueira e Lixa (norte de Portugal) — 1991: tinha havido nesse verão, 32 incêndios sem causa aparente. A família foi falar a um pároco da cidade de Amarante, com quem tinham confiança e estes mandou-os recorrer a mim.

Veio o pai, acompanhado de dois ou três familiares e contou que, um dia, pouco depois de se levantar de manhã, o colchão da cama onde dormia com a mulher, começou a fumegar bem no centro e quase de imediato saíram chamas. Nessa noite tiveram de mudar de quarto, mas, quando se preparavam para deitar, aconteceu o mesmo ao outro colchão.

Voltou a repetir-se o facto mais vezes, o que os preocupou, pois não havia já mais colchões de casal em casa. A seguir aos colchões, começou a aparecer roupa chamuscada, dentro dos gavetões fechados.

Chamaram as autoridades, que depois de um interrogatório das pessoas de família, nada concluíram. E foi então que foram falar com o padre amigo.

Família composta dos pais e pelos menos quatro filhas. A mais nova tinha na altura doze anos, tendo as outras uma diferença de idades maiores. Pedi que observassem quem estava presente cada vez que se deram os incêndios. Percebi que esse pedido intrigou o pai, que abanou negativamente a cabeça quando eu lhe disse que era alguém da casa que os provocava, sem perceber. Acabou por dizer que não percebia porque o senhor padre não tinha ido lá benzer a casa, em vez de o mandar para aqui.

Voltou uma semana depois, completamente em pânico: não só os incêndios tinha aumentado, como tinha chegado à conclusão de que a filha mais nova estava sempre por perto. E mais: notava que a menina andava muito estranha, ora deprimida, ora em grande agitação.

Contou que ele e a mulher começaram a observar a menina e então tinha visto que uma vez, saindo ela da casa de banho, limpou as mãos à toalha, virou costas e a toalha começou a arder. Foi arrumar umas peças de roupa lavada da mãe no gavetão e, depois de o fechar, começou a sair fumo. Lá dentro não havia nada que tivesse possibilidade de pegar fogo. E assim por diante, o pai foi contando as inúmeras vezes que tinha visto os fogos. E sentia-se amedrontado, pois ao chamar as autoridades, elas tinha levado para interrogatório um rapaz meio retardado, que os ajudava nos trabalhos agrícolas e que, na sua inconsciência, desatava a rir cada vez que havia um fogo.

E agora — dizia ele — que faço com a minha filha? Que vão dizer na aldeia quando souberem? Será que ela é bruxa?”

Pensei para mim, que finalmente, aqui estava um caso como aqueles que eu tinha estudado, com a típica “menina adolescente culpada”. Até que enfim, depois de tantos diferentes. Afinal as coisas às vezes, sempre são como os livros ensinam. Mas havia era que ajudar a família e a menina e não perder tempo em conjecturas. Pedi que me trouxessem mãe e filha, pois comecei a desconfiar que algo não batia certo naquela relação: arder só os colchões onde os pais se deitavam, chamuscar a roupa só da mãe...

Vieram as duas, com o pai. Ele vinha verdadeiramente em pânico, pois na véspera tinha sido um festival de fogos e a menina estava muito agitada, “parecia eléctrica”, como ele dizia. A certa altura, a menina, exausta, adormeceu sentada e com a cabeça reclinada na mesa da cozinha. Dormiu assim duas horas e durante esse tempo não aconteceu nada.

A mãe estava calma, “são coisas da idade, isto passa, mas o meu homem não se convence”.

Dirigi as minhas perguntas para a puberdade da menina: se já tinha tido a menarca e se a mãe a tinha elucidado sobre isso.

Que não “essas coisas aprendem-se sem ninguém ensinar. A mim também ninguém me ensinou e também não disse nada às outras minhas filhas”. Não entendeu que esta era diferente, mais interessada, mais curiosa e ninguém lhe tirava a ideia da cabeça. “Isto passa" — dizia.

Retorquia o pai: “até lá, arde-nos tudo”. Mas a mulher estava irredutível: “pergunte a quem quiser, que eu também fiz assim, mas não me fale dessa coisas a mim, que não me sinto à vontade”.

Com a prestimosa colaboração da irmã mais velha,
resolveu-se esta parte do problema.
Regressando a tranquilidade àquela mente inquieta, ficou o problema resolvido.


Lista de artigos em Parapsicologia
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  • Aspectos históricos e conceptuais da Parapsicologia
  • Conceito de inconsciente
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  • O problema da sobrevivência: domínio da religião, da filosofia ou da parapsicologia?
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